domingo, 30 de outubro de 2011

DOWNSTAIRS, DOWNSTAIRS:

A passagem de  Downton Abbeyna FoxLife,  provocou os habituais suspiros abafados nos lencinhos: "those were the days", "que mundo simples", etc. A série está bem feita, claro, mas, talvez porque cresci a ouvir as histórias sobre as criadas de dentro  que nunca tinham visto um autoclismo, deixo duas notas:

1) A série, tal como a original Família Bellamy, ( Upstairs, Downstairs),  não "transmite  os valores de uma época" coisa nenhuma. Transmite  as categorias culturais da classe dominante,  que,  é verdade, eram por vezes assimiladas pelas classes dominadas ( Reich,  que distribuía preservativos  pelos  operários de Viena nos anos 20, queixava-se de que o proletariado imitava  a moral sexual burguesa).

2) O sucesso deste tipo de séries reside num logro. Enquanto aparenta mostrar dois  mundos ( o da aristocracia e o dos servos), só mostra, de facto, um. O que atrai o espectador é o charme das caçadas,  dos  jantares,  das porcelanas, dos dichotes entre charutos,  etc. Ninguém pagaria para ver de perto a higiene dos empregados, a comida dos empregados, a forma como viviam os pais dos empregados, o casamento dos empregados; como não faria sucesso uma  série  escatológica sobre os hábitos de vida dos 5d per hour.
O INVERNO ISLÂMICO (I):

1) O recolher obrigatório bom, em Sidi Bouzid ( lembram-se?), de que não se  fala.
2) Uma grande mudança primaveril : dantes era-se preso  por dizer mal de Mubarak.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O ÂNGULO ERRADO:

O problema não está nas subvenções  dos políticos, como não está nas viagens  dos deputados, como não está nas ajudas de custo dos ministros. O problema não é o dinheiro, é as pessoas.
Um Rui Sá e  um Lucas Pires ou uma Ana Gomes e um Lobo Xavier  valeram e valem cada cêntimo que ganharam ou hão-de vir a ganhar, seja qual for a modalidade. O problema é uma classe política empregada da política. Deputados e políticos quase analfabetos, que nunca foram nada fora do círculo  partidário e assessores  nomeados a metro,   que estavam  no sítio certo à hora certa, são e serão  sempre caríssimos.
É um erro discutir a questão pelo lado das moedas. Acabamos como os herdeiros a cortar a garganta uns  aos outros pelo  colar  da avó. Num tempo em que homens de vida feita abandonavam as suas carreiras para servir o partido ou o Estado, as subvenções e os subsídios eram obrigatórios. Hoje é o tempo em que homens sem vida nenhuma  abraçam a política para arranjar uma.
Quando vemos  antigos magarefes  comportarem-se como nababos, é nosso dever não desesperar. Talvez  reler Tácito ( Vida de Agrícola) :  A própria memória teríamos perdido  com a palavra, se estivesse tão em nosso poder esquecer quanto calar.

SUGGESTIO VERI:

1)  Esta. Linguagem simples, divisões complexas,  um ou outro olhar diferente do habitual. Preço acessível.
2)  Estas cartas a Monica. Já cá fui trazendo pequenos  excertos. Para mim vale como a biografia de Larkin.
3) Vultos e Perfis, agrupados no vol.II das Obras Completas de Vitorino Nemésio. O sub-título - "Quase que os vi viver" é muito bem escolhido. Viajar pelas imperfeições  de Garret, Bocage, Cesário e outros. Escrita de outro mundo.
ESCRITOR DE QUÊ?

Dan Brown de pacotilha, autopromoção, grosas de bertoldice, revelações de porteira.
UM BOM BLOGUE DE ( DAS)  JORNALISTAS .

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

PRÉ-RAFAELITAS:

Uma antiga convidada do Mar Salgado, Christina Rossetti ( 1881):

Still I find  confort in the Book, who saith,
Tho, jealousy be cruel as the grave,
And death be strong, yet love strong as death.
O PENSAMENTO TÁCTICO :

No global, um grande momento de televisão no qual Alfredo Barroso teve a malapata de participar.
Ângelo Correia explicou,  hoje, na SIC-N, por que motivo não podemos  levar a mal  a dissonância ( que admitiu logo à cabeça, ao contrário dos hotentotes infra-escolarizados dos blogues)  entre o que Passos Coelho   disse antes das eleições e o que faz agora: as circunstâncias determinam o pensamento. Explicou isto enquanto adestrava, sem esforço,  Alfredo Barroso,  que se comportou muito bem até ao final do debate.
Está na hora de o  PS aplicar a doutrina do engº Ângelo  Correia  e chumbar o OE.
CRISE:

Os asfixiados e empobrecidos estudantes universitários de Coimbra  têm a partir de hoje à disposição  "uma área coberta de 400m2" que" pretende alcançar 100.000 pessoas" e seis concertos com quase 40 bandas e conjuntos. Pretende-se  "a melhor Festa das Latas da história da UC".
Pode ler tudo isto na edição de hoje do  Diário de Coimbra.
VIRA-CASAQUISMO ( VIII):

Vamos  extinguir institutos ,  mas para isso temos  de nomear extintores.
VIRA-CASAQUISMO (VII):

Só agora, não é?

Catherine Deneuve - Je vous aime



Muito fumo. Elegante e perdido.
O DIREITO EXTREMO:

O Correio da Manhã noticiava,  ontem, que dois moços   se tinham apresentado na GNR para cumprir a medida de coação decretada por um tribunal. Tinham, presumivelmente,  assaltado um mulher de 83 anos  no cemitério de Marco de Canaveses. A história fica coentrada quando sabemos que os dois jovens se apresentaram às autoridades  montando uma motorizada roubada. Uma vez interpelados, fugiram do posto.
Ou seja, cumprem a lei que não entendem: a  verdadeira  inimputabilidade.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

ALERGIAS:

Onde não chegaram os pólens da Primavera foi a Damasco e Teerão. 
Bem, não precisam, jà lá têm uma espécie de Outono, não é?
ESQUERDA/DIREITA (III):

O Povo exige retretes  públicas, rendas baratas e   salários justos. Se continuarem no cabeçalho, aparecerá a fotografia com estas palavras de ordem, bem como o inevitável protesto : "Não queremos eleições!". Nada diferencia isto dos movimentos alter-revolucionários-okupas   dos dias de hoje. Bem, as retretes públicas são uma conquista típica  de  esquerda: o Estado a esbater as diferenças  higiénicas.
Um revolucionário vermelho, um xiita iluminado  e um fascista dispensam eleições. A diferença:
a) O xiita nem sabe o que isso é.
b) O fascista não as respeitaria de todo  modo.
c) O revolucionário vermelho receia-as.

O FETO EM DIRECTO:

Tinham almoçado  um coelho de cebolada  e avinhado.  Saíram para comprar ar quando viram os podengos em conferência  escanhoada.
Seguiu a multidão pelo pinhal  e, depois da rotunda das flores vivas, encontraram-no. A terra tinha-o esquecido, mas o rafeiro da frente  antecipou-se às exclamações.  O tronco  mordido pela metade,  os pés roídos e desmotivados.
Recolheram os restos num lenço de assoar  e entregaram-nos aos jornalistas.





PORTUGAL RECARREGADO*-  RTP & AUSTERIDADES:

Entre Julho e Agosto de 1981, três jornalistas da RTP foram alvo da disciplina interna. Carlos Pinto Coelho e Rui Camacho foram à cadeia entrevistar Carlos  Antunes para o programa A Par e Passo; José Mensurado criticou o presidente  da estação, Proença de Carvalho. Os dois primeiros foram demitidos dos cargos que ocupavam, o terceiro foi despedido. Um pouco antes, em Maio, o ministro da Qualidade de Vida, Ferreira do Amaral, dizia que andava  a engolir elefantes vivos, por causa da permanência de Proença de Carvalho à frente da RTP.
A 1de Julho do mesmo ano, a maioria  AD aprova, na AR, o  Estatuto dos Deputados, que prevê um generoso aumento dos vencimentos. A 4, Eanes diz que  rejeitará  um aumento exagerado do vencimento proposto pelos parlamentares.  A 11, o Bispo de Bragança  critica o aumento dos vencimentos dos deputados.
Em Novembro  chega a Lisboa uma delegação do FMI .


* com a inestimável ajuda de  João Morais e Luís Violante ( 1986)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Catherine Deneuve & Serge Gainsbourg Ces petits riens



Trois fois rien entre nous. Um manual.
VOLTAS:

Pelas livrarias e pelos  autores portugueses premiados. Entre o Camões de Odivelas e o Steiner da Pocariça, um espanto. Nenhuma história, zero de humor, clichés a preço de saldo , um tédio monumental.
Na poesia, um Félix ( há vários, há um que  fala de  coitos de búzios)  usa seis advérbios de modo por cada documento notarial. 
A UTILIDADE DO  CONSELHO DE ESTADO:

Com Borges: posso protestar contra o excessivo pescoço da girafa, mas isso não modificará o tamanho da girafa.

 O BLIND:

Um abrigo é a obrigação de todo o homem inerrante. Protege-nos da artilharia inimiga: telefones, bons-dias, beijos  sujos, perguntas, aulas de ténis.
Deve ser construído como para a caça ao leopardo. Com materiais da zona para ninguém desconfiar: mentiras, desleixos, desculpas amareladas.
Conheço abrigos superiores que negam a entrada ao ar.



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

ISTO DE NUNCA TER VIVIDO UMA REVOLUÇÃO:

Deve ser adolescencialmente  acabrunhante. E isto de ser da extrema-esquerda com sotaina e caracóis louros deve ser bom para o poder:
ESQUERDA /DIREITA (II):

 Monsieur-dame, Jean-Jacques Rosseau, o anti-revolucionário ( Chambéry, 1754):

"Os povos, uma vez acostumados a senhores , já não têm condições de dispensá-los. Se tentam  sacudir  o jugo,  afastam-se ainda mai s da liberdade, pois tomando-a  como uma liberdade desenfreada  que lhes  é oposta, suas revoluções  quase  sempre os entregam  a sedutores  que  agravam os  seus grilhões".

domingo, 23 de outubro de 2011


 TROCAS:

A esperança sentou-se
e apertou os sapatos.
A dor,  irritada,
recusou o subsídio.


Nesta ordem reside o movimento:
acordar de noite e tirar as crianças do forno.

sábado, 22 de outubro de 2011

ESQUERDA/DIREITA (I):

A esquerda  é o lugar sobrenatural do homem - julgo que a fórmula é de Eduardo Lourenço. Pode entender-se  a afirmação assim: é o  produto da transformação das condições  do estado natural, ou do estado de guerra,  de Locke. A justiça e a igualdade são trabalhos contra esses estados. Esta mecânica é muito mais apetecível do que  a reverie utópica que cativa a juventude normalizada.
A esquerda tem muitas vantagens sobre a direita: 

1) Cooptou a defesa dos oprimidos, dos pobres e dos discriminados.
2) Promete um mundo diferente  e melhor.
3) É  experimentalista, o que lhe desculpa as consequências  dos erros e dos ensaios.

A direita nunca se libertou da herança imperial e capitalista. Nos tempos de fartura exigem-lhe  mais do que as célebres migalhas, nos tempos amargos assaltam-lhe as caves e os castelos.  O manto conservador só queimou  quando se aproximou  do fogo socialista. Mussolini foi redactor do Avanti!, Hitler  não se esqueceu  da palavra  na designação infame do partido. As ditaduras proto-fascistas ou sul-americanas são consideradas simples joguetes do grande satã  americano ou alter-capitalista.
A direita  joga à  defesa:

1) É assistencialista com os pobres ( muitas vezes em colaboração com a Igreja).
2) Vigia o domínio: nação e pátria.
3) É adicta à  tradição, ainda que  a tradição de hoje seja geralmente a novidade  que  a fazia tremer ontem.

É  mais fácil  ser de esquerda quando há liberdade, é mais fácil ser de direita quando não há.



(Nos próximos capítulos: teoria  e prática, o efeito da falta de dinheiro sobre as opções ideológicas, etc)




La gauche que j'aime est inscrite dans les veines de la France

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

RECAUCHUTADO:

Pacheco Pereira  queixou-se, ontem, na SIC-N, do pensamento único; segundo JPP, quem critica a política do governo é apodado  de  antipatriota.  Foi preguiçoso na análise, porque utilizou um velho bordão sem cuidar  de verificar a sua aplicabilidade.
Começa porque não tenho lido, nem ouvido, de uma forma minimamente  sistemática, essa acusação. Depois, o argumento de que se  deve discordar no detalhe ( concordando com o respeito pelas imposições externas) é confortável, mas capcioso: não havendo dinheiro, qualquer detalhe é o diabo. Na prática, é um combate de posições   à política do governo.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

La prophétie d'André Malraux

A COELHA DO COELHO:

Os vira-casacas  profissionais  da São Caetano já começaram a assestar as baterias sobre Cavaco. 
Vai custar mais a uns do que a outros, mas não se preocupem:  são todos profissionalões ( incluindo os agenciados).
CHEGOU A CANNES ESCONDIDO NUMA LATA DE SABÃO:

Ou de caviar iraniano, pouco importa. Ouviram falar dele ? Leram sobre ele longas  redacções das jornalistas de causas e dos amantes da liberdade e da cultura?
Claro que não. Durante  décadas,  checos, polacos, russos, letões  e muitos outros  tiveram  a mesma sorte às mãos do silêncio dos  ( e das ) canalhas libertários selectivos.
"SOBRETUDO  NÃO CATÓLICOS":

"O sacerdócio feminino e o celibato dos padres são questões urgentíssimas e que preocupam muita gente. Sobretudo não católicos".
Não faz mal. Também podem não ser benfiquistas, mas não tarda  e exigem uma avançada ao lado do Saviola e   uma  média ao lado do Aimar.O céu é o limite. Sim, são religiosos.
NUNCA ESQUECER:

O socialismo revolucionário é isto. O homem nunca foi condenado ( nem sequer julgado).
E é defendido pelos mesmos canalhas que,  na Europa, em Wall Street e em toda a parte, dizem bater-se pela liberdade; e é desculpado pelos jornalistas  de causas que se preocupam muito  com os fanáticos do Tea Party.
AMO PORTUGAL:

Sentimento  que, parafraseando o melhor misógino de todos os tempos,  partilho com uma enorme quantidade de imbecis meus compatriotas. A ver se entendo:

1) Em 2009, uma avó, divorciada e de casacos antiquados, avisou que não havia dinheiro e que era necessário começar a cortar antes que desse raia. O povo  fez orelhas moucas  ( ver post aí em baixo), bateu recordes de compras natalícias,  os funcionários públicos foram aumentados e o engenheiro ganhou.
2) Passado pouco tempo, a oposição e o José Gomes Ferreira da SIC disseram  que  não queriam cortes, que era um assalto,   que se podia fazer diferente  e despediram  o engenheiro.
3) O dr. Coelho chegou e começou a cortar porque afinal não se pode fazer diferente.
4) O povo indigna-se e diz que assim não pode ser.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011


 PROCELÁRIAS:

Estas procelárias
que me nascem da pele
e se encaracolam,
encaravelhadas
Pendem até ao chão
e cantam quando me arrasto.
No café da avenida
pensam que estou doente e
oferecem-me filmes suecos
da Liv Ulmann.





 AULA DE MEMÓRIA:

No centro Walter Reed, o veterano diz que uma única mão faz toda a diferença. Pode alimentar-se e limpar-se. Não agradece à granada esta aula? Claro.

As melhores lições são as que não têm repetição.



terça-feira, 18 de outubro de 2011

SARDINHAS & TREMOÇOS (III):

A esquerda  intelectual portuguesa está indignada. Só lhe fica bem.
Agora  é largar o conforto  dos duplex em condomínio privado, arrumar os i-Pad, desligar os bornes das baterias dos BMW e pegar em armas.
EM LINHA:

Deve ser por causa disto que, na sedosa linguagem mediática,  "os cérebros estão  a fugir para o estrangeiro".

Entrevista a Adolfo Bioy Casares.



É preciso reprimir a vaidade.
SERIA FÁCIL:

Psiquiatrizar - NOC, delírio, identificação projectiva, etc - e até conviria aos bertoldos que agora se  dedicam  a vasculhar  a admissão de Sócrates numa universidade francesa ( sem link, obviamente), mas não pode ser.
O processo é de outra ordem. Mostra como a denúncia política, entendida como combate desigual entre o periodista e do blogger contra o político poderoso , é uma mentira. O que há é  muito ego e moralismo de alguidar.
BUSH, O TEA PARTY E OS CRISTÃOS FUNDAMENTALISTAS:

Interditam investigação  com células estaminais na Europa.
SARDINHAS & TREMOÇOS (II):

Não há uma alma portuguesa nem uma arte de ser português, embora Pascoaes aludisse  a ninhadas de bacharéis roedores ( os autarcas, se bem me lembro) e Unamuno fizesse eco dos castelhanos  sem ossos.
O que há é um corpo português: pequeno, a dar para o seco, desconfiado e hirsuto, portanto,  podengueiro.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

[philipine1.jpg]

Adivinhem que tipo de carne está naquele frigorífico.
TCHERNYCHEVSKI:

Este vídeo é uma aula: uma  mistura de soixante-huitards reformados  ( que podemos  ver em qualquer manif. pró-Palestina ou de salvem o etarra Andoni Goicotxea)  com  os  Buraca-Rasta ( que  nunca devem ter visto um recibo de vencimento na vida e estiveram estes meses todos  em hibernação nos festivais dos Sudoestes). A simpatia dos media, a compreensão do poder, o olhar embevecido dos velhos popes : tudo concorre para  atribuir  a estas reuniões rock-crise  ( com criancinhas ao colo!)  o  tom de irrelevância absoluta.
Não compreender o que se passa,  e o que  se vai passar, ajuda ao tom de irrelevância. Não foi por acaso que Lénine foi buscar à novela de  Tchernyichevski o seu título  " Que fazer?"; não foi por acaso que Tchernichvski cunhou a expressão  "quanto pior, melhor".
Isto ainda nem começou. Quando começar, o rock-crise sai de cena e entram os despedidos, os finalistas  do subsídio do Bairro da Bela Vista, os trolhas sem trabalho, enfim, o pessoal da pesada.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

UMA IGREJA DISPENSÁVEL:

O bispo de Setúbal está pessimista e diz que o país é um comboio desgovernado. Se estivesse em Londres, em 1940, o bispo  diria que a Inglaterra estava à beira de perder a guerra e de ser invadida pelos nazis. Para isto - falta  de apoio, de  incentivo e de  força moral - não precisamos de bispos.
Gostava de ouvir os bispos e os cardeais   vergastar  a violência   sobre as mulheres e  discorrer sobre  a cultura de dominância machista ( que destrói a família  tradicional)  e coisas assim. Infelizmente, os nossos padres gostam mais de dizer o óbvio, elogiar os indignados-acampados  e falar de mãos sujas na política.
VIRA-CASAQUISMO (VI):

Dizia Borges que o nosso passado não é um registo biográfico, o nosso passado é a nossa memória: pode-se mentir,  mas então  a mentira já é parte da memória. 


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

TRUST THE TELLER NOT THE TALE:

 (...)  o Guardian e o New York Times que agora lhe chamam egocêntrico, paranóico, autoritário, intolerante, misógino, intrujão, o mesmo indivíduo que esses jornais há uns meses promoveram a herói mundial".
Voltamos ao mesmo, como no caso do pretenso broker que confessou desejar recessões: o que move o teller?
Se eu tiver acesso à ficha clínica do Faria, descobrir que ele está condenado e for  a correr  contar-lhe ( e à mulher ), estou a dizer a verdade. Por amor à verdade?
COMPARAÇÕES:

O mais fresco, revelador  e original   é o autor declarar que o povo do norte, que está apertado  pela crise, criminalidade, desemprego, fome  e outras moléstias, se revoltará  com  a ida  a tribunal  de  tipos que chegam  de Maserati aos treinos no  Olival. Resultado:  lá terão de convocar os jagunços do costume.
E não há crise sistémica que varra isto de uma vez.

MAIS DO MESMO:

O senhor Manuel Vilas Boas, "especialista  em assuntos religiosos"  da TSF e SIC-N, ontem, à SIC-N:  O Vaticano criticou o comunismo , mas não criticou o nazismo e o americanismo.
Sim, leram bem: o americanismo é como  o  nazismo.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Aldous Huxley interveiw part 3



Uma wise passiveness ( com a ajuda de Wordsworth)
A REBATE:

Este governo está a entrar numa fase que me suscita simpatia. Esqueçamos a sede do pote, o desaparecimento de ex- dobbermans companheiros de corrida, entretanto refastelados  em lugares mornos, as promessas obscenas  de campanha. Enfim, esqueçamos o partido e centremo-nos no governo.
É uma unidade política que tem de honrar os compromissos  que o país  assumiu e tem de o fazer numa  situação idêntica à de um homem preso em areias movediças: se se mexe muito, enterra-se, se não faz nada, enterra-se. 
Acontece que este governo vai perder , aos poucos, os apoios com que contou no início do processo. Este é um exemplo entre muitos. À medida que os o cortes começarem , de facto, a doer,  os figurões  zarparão como se o governo tivesse lepra. Não ajuda nada, mesmo nada,  o facto de não existir um escol político-intelectual disposto a dar a cara.  Nos media e nos  blogues, salvo as excepções da ordem, a repesentação é de uma  nulidade confrangedora: vinganças, graçolas e  redacções escolares.
Por muito que custe ( ou seja, por muito que isso possa beneficiar  agendas pessoais),  é obrigação de gente sensata ajudar este governo a navegar.



CARACÓIS, CARACOLETAS:

No muro branco, os caracóis são pequenos cabides espalhados  pela ordem do movimento. Sabemos  que estão a subir, ou a  descer, observando a direcção das antenas.
O movimento é suposto. Sabemos que existe porque sabemos que são caracóis e não cabides. Ainda assim, se nos demorarmos,  verificamos  que o movimento existe e que os caracóis não são cabides.
Quando se está bastante tempo diante de um muro com caracóis aprende-se imenso sobre a pobreza.





terça-feira, 11 de outubro de 2011

UMA EXCELENTE NOTÍCIA:

Agora quero ver os béu-béus tão valentes  com o DIAP como foram com o dr. Ricardo Costa.

AVISO ÀS MULHERES QUE AINDA NÃO ESTÃO NO HOSPITAL:

Insensata ideia essa a de roubar o que sempre nos foge. Só faltou ser marcada a ferro, como vaca da campina. E ainda espera que ele mude. Há-de mudar . É ponteiro de um relógio enjoado. Umas vezes baterá com a esquerda, outras com a direita.
 Os pontapés ficam para os dias santos.
DA REPARTIÇÃO:

Marx, Crítica do Programa de Gotha, 1875.
De cada qual, segundo as suas capacidades; a cada qual, segundo as sua necessidades. Até lá, muito caminho a percorrer.  Ficámos , nas sociedade livres, na fase  em que  a distribuição dos  objectos de consumo é uma consequência natural  da distribuição   das condições de produção ( é o capital, que não trabalha, que  engole as condições materiais).
O que aproveito: o socialismo vulgar  aprendeu com os economistas burgueses a tratar a repartição como  alguma coisa que fosse independente do modo de produção. Isto ainda parece lógico: se os trabalhadores não possuem as condições materiais de produção, os bens de consumo  são-lhes , de um modo geral, inacessíveis
Os  pseudo-radicais  que  se excitam  com os motins dos burgueses londrinos que roubam  os objectos das lojas de luxo , são isso mesmo : socialistas vulgares. E burgueses. E preguiçosos.
ONU, PALESTINA, ISRAEL:

 Malraux ( "Les chênes qu'on abat ", 1971) recebe de De Gaulle a informação de que há um gato,  nos corredores da ONU, que ninguém ousa perseguir: " Quand ces gens parlent de l'avenir du monde, il passe, pour remettre les choses à leur juste place "

domingo, 9 de outubro de 2011

Karen Blixen: The Last Interview



"A educação moderna é demasiado intelectual. Falta físico e imaginação".
VIRA-CASAQUISMO (IV):


Adenda: Vasco Pulido Valente não vai ser citado hoje  pelos fraldiqueiros O "pessoal político definitivamente corrupto" ( "que diz que Sócrates fez o mesmo")   estará ocupado  a tentar desenfiar uma carapuça do tamanho de Tóquio.

sábado, 8 de outubro de 2011

VIRA-CASAQUISMO (III):

Nem é necessário ir a Macário Correia, que mudou de opinião em quinze dias. Recorde-se o Albergue Espanhol, do ano passado, com a  habitual ortografia anti-elitista : "A colocação de portagens nas SCUTs, ao contrário do que nos pretendem vender, em nada se relacionam com a actual crise". 
E haverá mais, porque os vira-casacas são inesgotáveis.
VIRA-CASAQUISMO (II):

A crise era é uma desculpa. A crise é uma desculpa.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Roland Barthes, Mythologies (1957)


O Le Catch é o wrestling francês. Uma certa forma de justiça, diz ele...
TOIROS  AJUDAM A MATAR A FOME A 250 CRIANÇAS.
UM DIÁRIO PORTUGUÊS ( IV):

Com  a crise já não há nada para ninguém, lá dizia o Mata.
Ela agora não se depila nem faz rissóis. Ele  conformou-se com a barba nas pernas, rija e negra, e continua a deitar-se com ela, calculando que os primitivos eram todos uma espécie de bissexuais epidérmicos.
Os rissóis é que lhe custa. Para não falar nos pastéis de massa tenra como as pernas da estagiária da manutenção.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

AS ESTRELINHAS LITERÁRIAS:

Aqui, pela Maria do Rosário Pedreira. É curioso. A Educação para a Morte, recebeu  7/10 do Expresso ( José Mário Silva) e não vendeu  nada -  a revista Ler  nem o incluiu num artigo sobre  livros  acerca da morte editados em Portugal ( e foram muito poucos). É o meu melhor ensaio.
 O meu primeiro de ficção ( Mau-Mau)   recebeu  3 estrelinhas do Ypsilon, mas também não vai vender nada. E é a primeira vez que publicito estas avaliações.
Sei bem  que sou da província e anti-social. Tendência reforçadíssima  depois de ler os 90  comentários ao post de MRP.
VIRA-CASAQUISMO (I):

O bom  povo que ontem justamente  se manifestava nas ruas é agora uma corja reaccionária  manipulada pela oposição.

Alain Robbe Grillet - interview 1957



Escreve como um espião que microfilma.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

SEM DÚVIDA NENHUMA:

Um Ministro de Estado? Viesse a coisa de outro lado e  a matilha comunicacional de fraldiqueiros  mais ou menos  sonsos, mais ou menos raivosos, mais ou menos vira-casacas, ficava-se? Quanto ao PR, depois  da recepção aos deputados numa sala de  hotel, já não se espera nada.
Seja como for,  daqui a uns dias leremos que isto não interessou nada, que foi um fait divers.  Os invertebrados falam bem francês.

Adenda : isto fica sempre bem. A corporação não tem nada  a ver com o estilo político do dr. Jardim. Para Nogueira, fascista era Maria Lurdes Rodrigues. De facto, a crise tem aberto os olhinhos  a muita gente.



ISTO SIM:


Os debates sobre a decadência ocidental interessam-me pouco,  porque,  nessa matéria,  o meu caro Julius Evola ultrapassa  todos os Pulidos,  Nietzsches e  Spenglers  atados e postos ao fumeiro.
O que me interessa sempre é ver até onde o efeito anabolizante da charangada ensinada nos departamentos socio-psico  consegue  chegar. Pelos  vistos, à conclusão de que as peixeiras necessitam de um caralho pintado para lhes despertar psicologicamente as consciências.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

MISTIFICAÇÃO:

Autoritário, desbocado  e folclórico. São estes os pecadilhos  de Jardim, pelo menos na boca da   direitinha  lusa  e  dos escreventes pendurados nass côngruas  do actual governo da República ( não esquecendo Garcia Pereira, o educador da classe operária e advogado do governo regional,  e Jaime Gama, o homenageado).
Poucas coisas  dizem mais acerca do suposto sentido ético desta gente  do que esta mistificação. Na Madeira, como se sabe, muitos deputados  e governantes às ordens de Jardim são sócios ou donos das empresas que negoceiam com o governo regional ( por isso não  aplicam lá  a Lei das Incompatibilidades).
Talvez  porque, como diz Marinho Pinto, no legislativo, executivo  e parlamentar   continente as coisas sejam um pouco mais enojadas, todos fazem de conta que o problema é apenas  o estilo politicamente incorrecto de Jardim.
Incorrecto o tanas:  ultra-politicamente correcto. O poder acima das pessoas.
UM DIÁRIO PORTUGUÊS (IV):

À porta da fabriqueta, um cacho de homens. Assam chouriços comprados no Lidl e comem pão comprado no Lidl. Lá dentro já não há quase nada, muito do trabalho era feito em casa pelas gaspiadeiras. Ainda assim, vigiam.
O homem do sindicato,  um tipo baixo com cara de gineta, explica-lhes. A luta continua. Têm de defender os vossos direitos. Distribui umas folhas de papel com contactos telefónicos e electrónicos.
Os homens comem o chouriço e o pão. É um direito que têm.




segunda-feira, 3 de outubro de 2011

DA VIOLÊNCIA DA INTERPRETAÇÃO:

Muito bem. O verniz está a estalar, diz Jerónimo. Deixemos  de lado os outros, os  vulturinos que aproveitam sempre estas crises para nos impingir uma espécie de  Islão Vermelho, e centremo-nos no bom  povo de Jerónimo.
A expressão verniz a estalar  é boa:  é usada pelos  pessimistas, como Freud,  para descrever o estado precário da camada de cultura que reveste as bestas que somos.Significa que aquilo que Jerónimo dizia  serem   perda irreparáveis eram afinal simples camadas de  verniz. Continua a ser justo, comunismo é comunismo.
O ponto é a serventia da violência. O que fazer com ela? Não  podemos  contar com os tais betos badiounianos- vulturinos ( só coisa homo recalcada de contaco físico com   polícia e ataques a montra de  luxo), por isso temos  de saber o que quer o povo de  Jerónimo.
Se o verniz estalar, tem de servir para alguma coisa. Se não for para instalar um governo comunista  revolucionário, prender os ricos ,distribuir  o Avante! nas escolas,  ocupar as empresas e pôr a tropa na rua, então    não serve para nada.

domingo, 2 de outubro de 2011

UM DIÁRIO PORTUGUÊS (III):

A Lena, o Migas e o  Pepê Lestoff estão que não podem. A piolheira  e a crise e tal.  A Lena vai pintar   as unhas num comentário político, o Migas vai a uma reunião no Clube do Operário ( que não está lá porque já foi despedido)  e o Lestoff tem um jantar com a mãe dos primos.
Se estivessem juntos, no jardim murado de uma casa de Campo de Ourique, recordariam as tardes co' Jão Benárd ou os copos  co' MEC. Não estão. A crise levou-lhes a inocência e não lhes deixou uma trotinete a motor.


sábado, 1 de outubro de 2011

UM DIÁRIO PORTUGUÊS (II):

Chovia   há dois dias e  o artista plástico nunca julgou  ser possível. Depois de tantos anos a vender calhaus rolados a preço de ouro cortado,  para a autarquia embelezar as praças onde mijam os cães, saiu-lhe  uma verdadeira obra de arte. Interrogativa, anti-explicativa e pansexual. Rita, deitada de costas numa cadeira do estúdio, felicitou-o.
- Esta não vais conseguir que ta comprem.
- Pois não. Falta-lhe momentum.
- O que é isso?
- Não copiei bem.
UM DIÁRIO PORTUGUÊS (I):

Carla disse-lhe que não. As notícias são deprimentes e já não tem mais alprazolam. Ouvindo isto, ele saiu com o gato pela trela. Sempre come menos e não ladra, pensou.
- Ele saiu outra vez com o gato
- Deixa-o estar- diz-lhe a mãe personificada no telemóvel.
- Assim não nos entendemos.
Tanto melhor , duvidou Antónia. As notícia eram deprimentes. Foi de dar de comer à televisão, caminhou até ao quarto e deitou-se ao lado do marido mumificado.
- Ele saiu outra vez com o gato?
- Talvez. Pode ser um cão.