sábado, 22 de outubro de 2011

ESQUERDA/DIREITA (I):

A esquerda  é o lugar sobrenatural do homem - julgo que a fórmula é de Eduardo Lourenço. Pode entender-se  a afirmação assim: é o  produto da transformação das condições  do estado natural, ou do estado de guerra,  de Locke. A justiça e a igualdade são trabalhos contra esses estados. Esta mecânica é muito mais apetecível do que  a reverie utópica que cativa a juventude normalizada.
A esquerda tem muitas vantagens sobre a direita: 

1) Cooptou a defesa dos oprimidos, dos pobres e dos discriminados.
2) Promete um mundo diferente  e melhor.
3) É  experimentalista, o que lhe desculpa as consequências  dos erros e dos ensaios.

A direita nunca se libertou da herança imperial e capitalista. Nos tempos de fartura exigem-lhe  mais do que as célebres migalhas, nos tempos amargos assaltam-lhe as caves e os castelos.  O manto conservador só queimou  quando se aproximou  do fogo socialista. Mussolini foi redactor do Avanti!, Hitler  não se esqueceu  da palavra  na designação infame do partido. As ditaduras proto-fascistas ou sul-americanas são consideradas simples joguetes do grande satã  americano ou alter-capitalista.
A direita  joga à  defesa:

1) É assistencialista com os pobres ( muitas vezes em colaboração com a Igreja).
2) Vigia o domínio: nação e pátria.
3) É adicta à  tradição, ainda que  a tradição de hoje seja geralmente a novidade  que  a fazia tremer ontem.

É  mais fácil  ser de esquerda quando há liberdade, é mais fácil ser de direita quando não há.



(Nos próximos capítulos: teoria  e prática, o efeito da falta de dinheiro sobre as opções ideológicas, etc)




4 comentários:

António P. disse...

Boa noite Filipe,
Gosto do seu último ponto 3.
Nunca percebi porque é que a direita portuguesa estagnou e não consegue sair do registo que define tão bem nos pontos 1 e 2.
Um mistério ou talvez não.
Um abraço

marni disse...

Discriminados

FNV disse...

obrigado.

henedina disse...

"A esquerda é o lugar sobrenatural do homem"...
É mais fácil ser de esquerda com liberdade.
Devo-lhe "200 euros".
Bom post.